sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Treze pétalas...


Treze pétalas apenas
para cobrir o retrato de uma flor
germinada para lá do abismo,
matéria mascarada
na solene madrugada
que interrompe o silêncio
com o seu cântico sereno e afável.

Treze pétalas apenas
me separam de ti
e das tuas sílabas oblíquas,
o fruto carnudo,
alimento dos meus olhos,
o sorriso esquecido há muito,
atrás da montanha.

Treze pétalas apenas,
o segredo do gesto,
o tacto que realiza os contornos do poema,
o paladar da tua cor,
a voz de uma lágrima (em silêncio),
sempre a noite
e o sonho de um cego.

Marco Mangas

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Esperança


Falava contigo,
tinha-te como um mar de flores,
um barco de pedra no meu porto,
um som leve e ténue,
amores e desamores,
palavras doces no crepúsculo…

Queria-te no meu lugar,
suportando o aperto no coração,
os alicerces abandonados de uma ruína
lugar inocente,
espelho do teu rosto

…e sofro!
Sofro de exaustão,
fogo ardente, relampejante,
amarras de ilusão,
vozes de levante.

Outra maré,
outra vez o teu rosto,
o meu pedaço de esperança
traído pela vazante…

Amanhã, cá estarei ao sol posto
para reavivar a esperança.

Marco Mangas

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O que me seduz…



Passeiam
os corpos enaltecidos pelas manhãs
e eu ali, de braços cruzados,
membros de corda sisal,
pensamentos descalços, entrelaçados,
nós e enleios sobre as clareiras vãs,
silêncio invernoso enjaulado no tal
jardim sem luz…

Teimo
em abrir as portas
que se fecham na embriaguez dos sonhos,
hesitação aveludada no meu rosto,
se não te importas,
apenas soletro o olhar da Primavera,
os seus retratos risonhos,
o que me seduz…

Marco Mangas



Hoje



Hoje
deixo o sol invadir o meu ego,
deixo-o romper e corromper
entre as brechas do meu pensamento,
recordo a sombra que deixei para trás,
os rostos que beijei,
a terra pisada.
Há uma brisa de Sul,
um novo ventre nas margens da ria,
um pássaro branco que sorria
contrastando com o céu azul,
apregoando um novo dia,
uma nova sombra…
Sou o contraste do tempo,
o rosto do passado e do futuro,
o azul e o outro azul,
o outro eu que não encontro neste clarão.

Hoje e amanhã,
serei o espelho da voz serena,
a ternura do pássaro branco,
o seio vivo do poema,
não me encontro no tempo,
outro amanhecer,
outro amanhã…

Marco Mangas

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Queria beber apenas um copo




Queria beber apenas um copo,
embriagar-me do teu corpo
e da tua carne branda.

Queria beber apenas um copo
e viajar na tua fragata de sentimentos,
respirar pelos teus poros,
colmatar esta minha sede eterna,
diluir o meu corpo no teu,
abrir a porta dos teus segredos
e desvendar a erecção do poema.

Queria beber apenas um copo,
queria saciar-me de ti.
queria o aroma do teu sexo…

Marco Mangas

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Falta-me o ar



Falta-me o ar

Falta-me o ar,
as persianas sufocam o grito dos pássaros,
a clareira das palavras tapadas pela cortina,
o prédio está a desmoronar-se
de tanto sufoco visceral e feroz…
Continuo feliz neste desconforto,
oiço vozes e choros entrelaçados
lá fora,  o mundo cruel,
ardem os frutos,
crestam-se as árvores,
matam-se os homens
e os pássaros…


Falta-me o ar,
prefiro morrer de medo,
do que morrer da ganância.

Marco Mangas

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Um fruto...


Apenas
o refugio de um fruto
que se abriga do frio.

Intolerável
a inquietude do seu manto corpóreo.

Caduca
a sua respiração,
a sua forma de estar,
o seu corpo
(cada vez mais denso)
consumido pelas palavras ocas
e pelo tempo vão…

Um fruto.
Um fruto, apenas…

Um fruto cada vez mais só,
cada vez mais ébrio,
cada vez mais próximo da terra,
da infertilidade,
da insensatez,
da cegueira da multidão.

Um fruto maduro que se suicidou,
um fruto que não alimentará
a gula do Homem.


Marco Mangas

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Hoje


Hoje
mergulho na palma da tua mão,
desvendo a cura para o teu passado,
imagino-te aqui
semeada entre os vales cinzentos,
observo-te entre os meus dedos
que acariciam os teus cabelos
na aurora matinal.
Rego-te com silêncio,
pureza em bicos de pés,
descubro o teu segredo nos troncos
do meu pálido pensamento,
alvoroço e frescura da terra.
É neste baú
que guardarei o teu fruto,
e os dias que nos restam
até à próxima colheita…


Marco Mangas


Escrevo tudo



Escrevo tudo
menos o que vejo
a vulnerabilidade do amanhã
sobre a noite
sem rosto.

Descrevo o ar que respiro
o ar que desejo
depois do amanhã
sem lume
e sem desgosto.

Transcrevo a nudez
do bocejo
depois do depois de amanhã
no banco de jardim
do lado oposto...


Marco Mangas

Escrevo tudo



Escrevo tudo
menos o que vejo
a vulnerabilidade do amanhã
sobre a noite
sem rosto.

Descrevo o ar que respiro
o ar que desejo
depois do amanhã
sem lume
e sem desgosto.

Transcrevo a nudez
do bocejo
depois do depois de amanhã
no banco de jardim
do lado oposto...


Marco Mangas