terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Hoje



Hoje
deixo o sol invadir o meu ego,
deixo-o romper e corromper
entre as brechas do meu pensamento,
recordo a sombra que deixei para trás,
os rostos que beijei,
a terra pisada.
Há uma brisa de Sul,
um novo ventre nas margens da ria,
um pássaro branco que sorria
contrastando com o céu azul,
apregoando um novo dia,
uma nova sombra…
Sou o contraste do tempo,
o rosto do passado e do futuro,
o azul e o outro azul,
o outro eu que não encontro neste clarão.

Hoje e amanhã,
serei o espelho da voz serena,
a ternura do pássaro branco,
o seio vivo do poema,
não me encontro no tempo,
outro amanhecer,
outro amanhã…

Marco Mangas

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Queria beber apenas um copo




Queria beber apenas um copo,
embriagar-me do teu corpo
e da tua carne branda.

Queria beber apenas um copo
e viajar na tua fragata de sentimentos,
respirar pelos teus poros,
colmatar esta minha sede eterna,
diluir o meu corpo no teu,
abrir a porta dos teus segredos
e desvendar a erecção do poema.

Queria beber apenas um copo,
queria saciar-me de ti.
queria o aroma do teu sexo…

Marco Mangas

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Falta-me o ar



Falta-me o ar

Falta-me o ar,
as persianas sufocam o grito dos pássaros,
a clareira das palavras tapadas pela cortina,
o prédio está a desmoronar-se
de tanto sufoco visceral e feroz…
Continuo feliz neste desconforto,
oiço vozes e choros entrelaçados
lá fora,  o mundo cruel,
ardem os frutos,
crestam-se as árvores,
matam-se os homens
e os pássaros…


Falta-me o ar,
prefiro morrer de medo,
do que morrer da ganância.

Marco Mangas

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Um fruto...


Apenas
o refugio de um fruto
que se abriga do frio.

Intolerável
a inquietude do seu manto corpóreo.

Caduca
a sua respiração,
a sua forma de estar,
o seu corpo
(cada vez mais denso)
consumido pelas palavras ocas
e pelo tempo vão…

Um fruto.
Um fruto, apenas…

Um fruto cada vez mais só,
cada vez mais ébrio,
cada vez mais próximo da terra,
da infertilidade,
da insensatez,
da cegueira da multidão.

Um fruto maduro que se suicidou,
um fruto que não alimentará
a gula do Homem.


Marco Mangas

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Hoje


Hoje
mergulho na palma da tua mão,
desvendo a cura para o teu passado,
imagino-te aqui
semeada entre os vales cinzentos,
observo-te entre os meus dedos
que acariciam os teus cabelos
na aurora matinal.
Rego-te com silêncio,
pureza em bicos de pés,
descubro o teu segredo nos troncos
do meu pálido pensamento,
alvoroço e frescura da terra.
É neste baú
que guardarei o teu fruto,
e os dias que nos restam
até à próxima colheita…


Marco Mangas


Escrevo tudo



Escrevo tudo
menos o que vejo
a vulnerabilidade do amanhã
sobre a noite
sem rosto.

Descrevo o ar que respiro
o ar que desejo
depois do amanhã
sem lume
e sem desgosto.

Transcrevo a nudez
do bocejo
depois do depois de amanhã
no banco de jardim
do lado oposto...


Marco Mangas

Escrevo tudo



Escrevo tudo
menos o que vejo
a vulnerabilidade do amanhã
sobre a noite
sem rosto.

Descrevo o ar que respiro
o ar que desejo
depois do amanhã
sem lume
e sem desgosto.

Transcrevo a nudez
do bocejo
depois do depois de amanhã
no banco de jardim
do lado oposto...


Marco Mangas

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Nevoeiro



Perco-me entre as brumas do nevoeiro,
visão turva, descalça, sem fulgor…
Quero abraçar as clareiras da terra,
desvendar os fragmentos de mim,
colher as palavras ambíguas do passado
incessante…
Procuro o paladar e a voz,
 o sustento de minha existência
consumida pelo nada,
uma folha branca, sem mácula,
sem narrativa, um conto vazio,
um verso disperso de si mesmo,
nada se avista ao alcance do poeta.
Hoje sou a névoa e nada mais.

Marco Mangas @ 20 de Setembro de 2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Inseparável de ti...


Inseparável de ti,
brisa do mar, areal a Sul.
Apenas a tela me separa
do laivo suscitado pelas marés.
Os socalcos que se afogam na sua fragância,
silêncio que se rasga neste eco de sentidos.
Os canaviais que se alimentam da cacimba
despertada pelo marasmo do anoitecer.
As pedras lisas, inertes,
são corpos albergados e levianos,
mergulhados no silêncio cristalino,
balançados na repetição súbita
das ondas e da lembrança.
A jusante, as conchas renascem,
evidenciando-se dos restantes minerais,
um relevo pintado de sal e esperança,
salpicos da voz,
outra forma de expressão poética.

É esta a realidade que encontro
no baú dos segredos oníricos,
encoberta por este manto de algodão,
borbotos salsuginosos onde mergulho.

Sou inseparável de ti…


Marco Mangas @ 31 de Agosto de 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Questiono-me



Onde estará a substância,
o sorriso da sombra que se esconde na penumbra,
a brisa deste deserto de palavras turvas,
o tropel das tempestades,
os dias ébrios e a sabedoria do vinho?

Dias súbitos…

Rosto de silêncio e sol,
timidez vertiginosa desta fadiga intemporal,
aridez imperfeita, imatura,
túbida masturbação da chama,
desejo disperso…

Inconscientemente,
procuro o abrigo, a pureza,
uma pedra que me dê conforto,
alento para beber mais um copo,
a serenidade renascida do poema.


Marco Mangas @ 04 de Agosto de 2016