quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Aroma de poesia



Entre anseios e afagos,
pedras frias, profanas, amargas,
vislumbra-se um mar ávido a Sul,
invocando a volúpia e o prazer,
traduzido por gestos que transpiram o seu sal
num deslizo vertical de ternura,
uma sensação estranha, pura,
que estrangula a voz e a palavra,
com um simples acenar de desejo,
sua nudez presencial,
aroma de poesia.

Marco Mangas

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Não posso


Não posso

Não posso odiar os dias,
a sombra das noites,
as reticências do amanhã

Não posso pontapear a vírgula
só porque tropecei no passado,
outra forma, outra falácia

Não posso beber a substância
que ainda procuro,
o reflexo dos meus sonhos

Não posso alimentar-me
das palavras
e da fome dos outros

Não posso esquecer a tua existência,
o teu sorriso
espelhado no meu olhar

Não posso, não posso
…mas posso fazer de conta
posso tudo e posso nada


Marco Mangas @ 07 Agosto 2015 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Metamorfismo dialéctico



Diante este mar prodígio
de livros enclausurados,
sobrepostos  e entrelaçados ao horizonte,
desvendarei as palavras perdidas,
no outro lado da margem,
remarei contra a corrente literária,
rasgando a página,
decifrando o significado desta viagem.
Os remos continuam rasurando os corpos,
escarafuncham os versos,
tempestuosos e tenebrosos versos,
no processo do metamorfismo dialéctico.

Marco Mangas @ 30 Julho 2015

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Lucidez do poeta



Vislumbro um olhar de sul,
voz ténue e perfumada,
beijo suave, flor de sal.

Ardem meus olhos,
seda azul do mar, fantasia,
gotas de amor.

Silêncio no desejo,
amor d’ encanto,
ébrias madrugadas…

Lucidez do poeta.


Marco Mangas @ 29 de Julho de 2015

segunda-feira, 27 de abril de 2015

...continuarei


…continuarei

a pisar o chão e a cinza,
oscilando a sombra dos corpos,
evocando palavras vazias,
insaciáveis, suspeitas e sobrepostas
entre a névoa e o ruído côncavo,
movimento súbito e amargo.

a sarar as feridas do horizonte,
a tactear as cicatrizes da terra,
estilhaçando o olhar devastador
consumido pelo suor e pelo cansaço,
ao ritmo deste coração inerte
debruçado sobre o abismo.

a rasgar as páginas ímpares
reflectidas na sua assimetria,
silenciando o seu contorno
translúcido e existencial,
enaltecendo a palavra prenunciada
no limiar da tempestade.


Marco Mangas @ 27 de Abril de 2015

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Madrugada





Era madrugada,
e lá estava de braços ancorados à terra,
reflexo  perdido de um espelho árido
submerso no fundo do mar pleno,
adormecido pelo silêncio da noite,
rasgando todos os versos envelhecidos,
fragilidade corpórea…
Passaram horas, marés,
(outra alvorada)
e lá estou, fulcro da memória,
flores de pânico submersas,
ossos triturados de uma página,
conchas quebradas, vazias…

…matéria saboreada pelos olhares do sul.


 Marco Mangas

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Visão



Visão turva de uma miragem,
ante um corpo de pedra e pó,
numa encruzilhada carnal,
faminta, imperfeita e involuntária.
Os dias são perpétuos,
silhueta de um cortejo repetitivo
que inebria as horas inconscientes
deste singelo percurso,
prova de minha herança,
meu retrato grisalho...
Pretendo plagiar a visão
do alimento de uma árvore,
abrigo de um fruto efémero,
submisso ao seu tempo e à sua quadra,
remetido ao seu silêncio
leviano, fátuo, mas feliz…


Marco Mangas @ 17 de Abril de 2015


terça-feira, 7 de abril de 2015

Encanto


No encanto da sublime voz de sueste,
diante um mar tenebroso trajado de negro,
encontrei um passageiro disfarçado,
 um fingidor,
(en)coberto  de algodão, sódio e revolta,
arrastando todas as âncoras e amarras
ao seu melhor sabor
e prazer
amargo, bravio, incoerente,
que me apraz…
Mar d’encanto, figura do desejo
alimentado p’la força das palavras
que confrontam a  tempestade
com a sede de meus olhos,
enfrentando e devorando os socalcos da terra ,
incessante, sem dó, nem dor,
numa alucinação deslumbrante e voraz,
vertiginosas rajadas sem cor,
sombra do que é capaz,
este encanto…

Marco Mangas @ 7 Abril de 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pesadelo


Trago na memória
capítulos inertes deste lugar comum.

Ainda vislumbro o despertar das cortinas,
cercado pela luz do silêncio,
embaraçado em lágrimas secas
vertidas em chama amarga
de uma vida crua e vazia.

O grito era o alento suado
das manhãs pálidas e fiéis,
reflexo do espelho turvo
situado sobre a velha cómoda de pinho
que ainda tresanda a mofo.

Lá fora, numa azáfama,
os pássaros alimentavam suas crias,
crianças corriam e saltavam pelos canteiros,
transbordavam gargalhadas,
sorrisos severos e espontâneos.

E eu ali… sem fôlego, arqueado,
descalço, enrolado no andrajo,
a observar o meu próprio reflexo
em busca da chave
que abrirá a porta deste lugar secreto,
deste pesadelo de criança.


Marco Mangas @ 18 de Março de 2015

terça-feira, 17 de março de 2015