quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Manhãs



…queria ser o rosto das manhãs,
o parágrafo rústico daquele rochedo
(in)corpóreo,
o habitat dos pássaros
que gritam a liberdade,
o contraste dos dias que passam,
o pranto e a vertigem do silêncio,
o gelo que derrete nas mãos,
mas não.
…prefiro ser eu, sem rosto
(no sentido figurativo),
ter a sensação e a amplitude
de tudo o que me toca,
poder mergulhar na vertigem
e no abismo das águas gélidas,
poder sarar as rugas, página a página,
encorajando os pássaros,
percorrendo todas as manhãs,
palavra ante palavra, pé ante pé.

Marco Mangas

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Éramos




Derramados sob a cal,
éramos corpos vadios,
corpos vaidosos,
alguém gemia um cantigo plagente
na sombra descartável da vida.

Éramos um sopro do desejo pestilente
à mingua e à beira da morte,
areia adusta…

Marco Mangas

terça-feira, 9 de maio de 2017

Silêncio


Finalmente consegui sentir e contemplar a nitidez da palavra.
Tanto tempo a procurar entender o que poderia estar para lá da antiga estante.
Fragmentos de poetas, fanzines, livros de banda desenhada, metáforas, matéria sem liberdade, morte e um novo cais de embarque com destino a um novo mundo.

Um mundo onde o silêncio se regenera…

Marco Mangas

quarta-feira, 22 de março de 2017

Quebra-se o mar...


Quebra-se o mar
sobre o pranto das lembranças,
a lucidez dos sonhos
é a marca viva do deslumbramento,
o outro lado do espectro,
vicissitude da vida poética.

Quebra-se o mar
sobre as margens do passado,
o tempo cobiçado na orla do presente,
brota-se o fundo e a magia
de um pensamento perdido
e condecorado pelo céu.

…nasci alma, morrerei pedra!

Marco Mangas

quinta-feira, 16 de março de 2017

Um mundo mutante!





Neste abrigo primaveril
desvendo o sentido das flores que colhi outrora,
o brilho dos teus olhos  são hoje,
a fonte natural da beleza,
o mel e o medronho nos lábios,
aquele arrepio sem remorso.

Hoje
colhi uma nova paisagem,
um mundo novo.

Aprecio este instante
e soletro a metamorfose das nuvens,
como cada pingo que cobre o chão,
a sombra nua e molhada,
o desassossego dos pardais,
tudo o que cobre aquela colina…

Amanhã
colherei uma nova paisagem,
um mundo novo.

Um mundo mutante!


Marco Mangas

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Silêncio da matéria


Há vertigem na matéria,
um fruto que beija a terra
e nada o fazia prever…
Há grutas virgens onde me apago
no balanço e no sono das palavras.
Ninguém entende o sabor derramado no silêncio,
ninguém entende o silêncio,
o siêncio
nem os rios, nem as folhas,
nem o pólen dos girassóis.
Quero acordar e ver-te ao meu alcance
sustentar-me do paladar dos campos,
da migração das aves,
murmúrios do vento que nascem a Sul...

O tempo amadureceu a terra,
fez cair o fruto,
pura magia,
amor próprio,
silêncio da matéria.

Marco Mangas

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O vazio


Corria já sem fôlego,
pulsação ofegante e abreviada,
já saturado de percorrer caminhos vazios
e de saborear apenas a vertigem do horizonte,
arqueado sobre a terra
como se fosse uma raiz frágil no deserto,
uma árvore sem fruto,
um sopro,
fundi-me na terra…

Surpreendentemente,
conheci um amigo,
um pássaro fingido (quem me dera ser),
um passageiro que repousava na árvore do vazio,
conseguia até ouvir o seu próprio silêncio,
o sabor amargo da pedra no chão,
o vazio repetido sobre as águas e sobre o tempo
como um candeeiro apagado,
posso ouvir-te, posso ser-te!

Marco Mangas

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tropecei...


Tropecei na margem inferior
de uma página,
o semblante
de um livro sem sinopse,
uma folha distraída abraçada à terra,
alimentada pela sua astúcia,
raíz audaz e improvável.

Tropecei na margem inferior
deste corpo inerte,
excêntricismo,
uma floresta perdida talvez (numa cidade),
um corpo que busca o seu alimento,
o saciar de sua sede,
a sua razão existencial…

Tropecei na margem inferior
outra vez,
outro percurso,
outra viagem subtil,
enterrei os meus pés na terra,
fechei os olhos
e encarnei aquele quadro.

Marco Mangas

(Imagem: Tela de Claude Monet)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Vocábulo




Nada fazia prever
o sopro do tempo,
um vocábulo perfeito,
gélido alvoroço.

Os alimentos parecem rochas,
coisas sem amor,
cor pálida, insensibilidade,
frio.

As feridas parecem fendas,
vocábulo de dor,
o arame farpado penetra na pele,
calafrio.

Marco Mangas

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um rio lá ao fundo




Avista-se um rio lá ao fundo,
uma morada desconhecida,
os olhos desvendam algo estranho,
transparente modo,
um gesto sorridente,
pontuação singular,
exclamação…

Afinal era uma lágrima,
outra e outra lágrima,
uma vala comum de frutos caídos,
sabor amargo a meus pés,
recriação deste mundo rico,
insano!

Sustento a respiração,
soletro o imperfeito, 
o vil, o horror,
o desejo de ser nada,
o desejo de ser um rio lá ao fundo.


Marco Mangas