sexta-feira, 24 de abril de 2015

Madrugada





Era madrugada,
e lá estava de braços ancorados à terra,
reflexo  perdido de um espelho árido
submerso no fundo do mar pleno,
adormecido pelo silêncio da noite,
rasgando todos os versos envelhecidos,
fragilidade corpórea…
Passaram horas, marés,
(outra alvorada)
e lá estou, fulcro da memória,
flores de pânico submersas,
ossos triturados de uma página,
conchas quebradas, vazias…

…matéria saboreada pelos olhares do sul.


 Marco Mangas

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Visão



Visão turva de uma miragem,
ante um corpo de pedra e pó,
numa encruzilhada carnal,
faminta, imperfeita e involuntária.
Os dias são perpétuos,
silhueta de um cortejo repetitivo
que inebria as horas inconscientes
deste singelo percurso,
prova de minha herança,
meu retrato grisalho...
Pretendo plagiar a visão
do alimento de uma árvore,
abrigo de um fruto efémero,
submisso ao seu tempo e à sua quadra,
remetido ao seu silêncio
leviano, fátuo, mas feliz…


Marco Mangas @ 17 de Abril de 2015


terça-feira, 7 de abril de 2015

Encanto


No encanto da sublime voz de sueste,
diante um mar tenebroso trajado de negro,
encontrei um passageiro disfarçado,
 um fingidor,
(en)coberto  de algodão, sódio e revolta,
arrastando todas as âncoras e amarras
ao seu melhor sabor
e prazer
amargo, bravio, incoerente,
que me apraz…
Mar d’encanto, figura do desejo
alimentado p’la força das palavras
que confrontam a  tempestade
com a sede de meus olhos,
enfrentando e devorando os socalcos da terra ,
incessante, sem dó, nem dor,
numa alucinação deslumbrante e voraz,
vertiginosas rajadas sem cor,
sombra do que é capaz,
este encanto…

Marco Mangas @ 7 Abril de 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pesadelo


Trago na memória
capítulos inertes deste lugar comum.

Ainda vislumbro o despertar das cortinas,
cercado pela luz do silêncio,
embaraçado em lágrimas secas
vertidas em chama amarga
de uma vida crua e vazia.

O grito era o alento suado
das manhãs pálidas e fiéis,
reflexo do espelho turvo
situado sobre a velha cómoda de pinho
que ainda tresanda a mofo.

Lá fora, numa azáfama,
os pássaros alimentavam suas crias,
crianças corriam e saltavam pelos canteiros,
transbordavam gargalhadas,
sorrisos severos e espontâneos.

E eu ali… sem fôlego, arqueado,
descalço, enrolado no andrajo,
a observar o meu próprio reflexo
em busca da chave
que abrirá a porta deste lugar secreto,
deste pesadelo de criança.


Marco Mangas @ 18 de Março de 2015

terça-feira, 17 de março de 2015

quinta-feira, 12 de março de 2015

Seiva da terra



Sou a seiva da terra molhada,
fruto da sementeira do passado,
gemido de minha própria sombra.

Quero ser a chama,
partículas de fogo e de cinza,
essência natural do destino,
o contraste da existência,
síntese das coisas
que se movem e se transformam.

Dentro deste casulo,
a mutação é recíproca,
o sal, o sol, o sangue…
                 - o corpo.
A palavra é o retrato
e o deslumbramento da matéria
que se gerou do chão pisado
pela voz e pelo processo
nesta terra feita de carne.



Marco Mangas @ 12 de Março de 2015

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

No semblante celeste


No semblante celeste
ergue-se um tronco,
uma voz fragmentária de ódio,
um silêncio de paz sem rumo,
um horizonte volúvel e fingidor.

Sua bagageira de pedra
suportada plo seu próprio dorso,
marcas de cinza na pele,
seiva do sopro do passado,
firmeza no seu olhar.

No instinto,
o reflexo e o cheiro da terra,
a penumbra hiante e selvagem,
o mosto que corre nas veias
de um corpo sereno e volátil.


Marco Mangas
@ Olhão, 16 de Fevereiro de 2015

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Procuro no horizonte


Procuro no horizonte,
um deserto sem areia,
o trilho de um sonho ardido,
as marcas de uma memória acesa,
uma montanha de palavras (sem oxigénio),
a emancipação das raízes embutidas
na terra que me viu nascer.

Sigo em busca do meu corpo,
sangue de minhas mãos,
vestígios do meu chapéu de couro,
aroma dos teus seios carnudos,
sombra do meu prazer…

Quero desvendar a origem da pegada,
a voz da matéria ténue e palpável,
alheia a todas as ondas do pretérito,
a todas as premonições da razão,
canto do meu cadáver absorto,
sepultado sob a laje.

Procuro no horizonte,
a moldura de oiro,
o retrato vivo do poema.


Marco Mangas

@ Olhão, 12 de Fevereiro de 2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

No (re)verso


No (re)verso…

Neutralizarei o sal,
as raízes mais profundas da terra,
as pedras do meu altar.

Converterei as águas do mar
de sul, em vinho doce, tinto,
sangue de minhas artérias…

A brisa não será mais que o olhar
eterno de minha aparição,
o sossego de um coração flácido,
corrompido, milagroso e ébrio.

No teu ventre, conceberei um verso,
sem rima, sem rosto, sem fim…
Herança do teu corpo,
teu sonho… meu ópio.


Marco Mangas @ 2 de Fevereiro de 2015


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O poema...


O poema…
A substância que alimenta o corpo,
que corrompe as águas espelhadas
(outrora) beijadas e adoradas
pelo seu próprio reflexo.

No horizonte…
Avista-se o rosto de uma jangada,
(um espectro no cimo da parábola)
concebida pelo tempo, pelo homem
e pelo nada.

No seu olhar,
uma combustão de sentimentos,
(…)
loucura, adrenalina, vertigem,
medo…

A morte
navega à bolina, num rumo sem fim,
de mãos dadas com o mar.

O seu leme
continua rasgando o espelho,
rasurando a palavra 
nesta inútil viagem de papel reciclado.


Marco Mangas in http://aequum-equidade.blogspot.pt/


@ Olhão, 28 de Janeiro de 2015