quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"Metamorfosica(mente)" uma rocha


Metamorfosica(mente) uma rocha
não virgem,
semi-trajada de pureza,
incumbida pelas ondas do mar
e retirada do seu seio natural,
sem roupa, descalça,
sem rasto nem rumo...


Sabor a clorofila e sal,
sua primorosa cintura,
erodida a rigor,
forma assimétrica,
descendente de si própria,
de seu núcleo terrestre
listado, infértil e utópico.


...Indefesa, inanimada
sua respiração,
côr pálida e faminta,
memória vazia de afectos,
inútil e volátil corpo,
particularmente valioso,
apaixonado e fascinante


                     objecto da natureza morta.



Marco Mangas @ 3 de Setembro de 2014

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Da sepultura, à flor da terra



Da sepultura, à flor da terra,
um mundo surreal de sementes
interpoladas a um retrato lírico.
Numa cartada, o ás de copas
é a voz que expressa
o movimento de revolta
e reviravolta...
A meio da partida,
encontro uma página cheia de vazio.
Vazio repleto de lembranças,
loucura, sorrisos, magnólia…
A essência de um mero gesto,
de um simples lançar de cartas,
de  um simples olhar
ou (des)olhar no horizonte,
cheio de nada,
cheio de tudo
(in)existente...
Apenas o vazio da realidade,
menos uma carta para jogar,
mais uma alma apagada,
uma vela acesa,
o verdadeiro retrato
da sepultura, à flor da terra.


Marco Mangas @ 27 de Agosto de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Fragmentos do solo infértil


Fragmentos do solo infértil,
sorrisos forçados
e debruçados sobre a calçada,
a sua inércia é a única prova
de sede e fome...
...luto e (des)luto
na infinidade subsistente,
p'la liberdade roubada,
usada como armas de arremesso.
Quero ter sede
quero a fome,
a luta,
o direito à dignidade...

                   ...Foda-se.

Fragmentos do solo infértil,
das palavras que invadem as brechas,
por entre as rochas,
durante a sua diástole,
O sufoco traduz a dimensão
da revolta,
que (re)volta
a assombrar os dias,
os corpos,
os corações...
Soltam-se as amarras (da política),
da merda do dinheiro.
Vivemos na fertilidade...


Marco Mangas @ 22 de Agosto de 2014

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Álbum de retratos



Exumação do álbum de retratos,
Um silêncio de gula ancorado
ao negro do mar profundo
e à raiva de seus desejos
outrora naufragados.
Sua nudez é a única cortina
que separa o acto da razão,
o presente do passado...
O copo que transportara,
flutua agora - meio vazio,
 - meio cheio.
Derramados os argumentos,
sucumbidos e rasgados,
restam os cabelos estrinçados
e amarrados à bóia da utopia,
a estibordo de seus restos
navegados à matroca...
    - Turbilhões do álbum de retratos.



Marco Mangas @ 21 de Junho de 2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Palavras



São pérolas negras de minha coroa,
Urnas de esporádicos sonetos,
(En)cantos que no silêncio entoa,
Raízes, embriões, fetos…

Estímulos lançados à toa,
Versos despidos, revoltados, indiscretos,
Profundos como um barco sem proa
E seus transladados esqueletos.

Esculpida em pedra sua biografia,
No papel, sua voz, suas memórias,
Risadas poéticas na sua ortografia.

O poema é o epílogo das histórias,
O pó é a sua presente morfologia,
Passado, futuro, outras trajectórias.



Marco Mangas @ 04 de Julho de 2014




sexta-feira, 20 de junho de 2014

Cadáver


Quando volta o aroma,
a terra molhada,
ocre,
é o palpitar dos corações,
monumentos - figuras de pedra,
o frio não é (re)movido,
é a fúria digna de sua palidez,
distância,
cadáver
frio, (cala)frio.
Inflamada e negra
a exausta manhã,
ajoelhada ao cadáver,
choque - um de nós,
todos          silêncio.
Trajectória ínsone
iridescente
- outro dia...
Crepitações, insectos,
Sortilégio dos ossos,
nas so(m)bras,
o grito é mais leve e leve
- novo rumo sem rumo
uma semente promissora
dispersa.


Marco Mangas @ 20 de Junho de 2014








sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pêndulo



Um pêndulo de sentidos,
amarrado a uma corrente de palavras
e a um maço de notas poéticas.
Tercetos e actos em papéis ardidos,
velas queimadas - metamorfose...
E novamente, tudo convertido em cera
do tempo passado,
da realidade presente,
do pretérito-perfeito recalcado.

- O negro de uma pedra preciosa
encontrada naquela noite,
O branco vestido da donzela
que beijaste e soletraste,
Um misto de frio e calor,
secura e suor,
Lágrimas de alegria e tristeza,
O seu doce sabor,
O ardente gesto de prazer
do gelo derretido em sua pele
leve e sedosa, sedenta de carinho.

Um pêndulo, nada mais...
O vai-e-vem de uma lembrança,
de um adulto-criança,
suas memórias...
Tempos que vão e voltam,
ou que apenas lá ficaram,
ou que simplesmente voltaram para ficar,
Resumindo-se ao vazio do corpo
e ao seu gesto uni constante...

- tic, tac, tic, tac, tic, tac...



Marco Mangas @ 13 de Junho de 2014

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Prisão



Abre-se a janela,
Outra realidade…
A brisa invade a matéria,
As partículas de pó
são fagulhas do aço derretido...
A pele é o suporte,
substituto da tela,
O papel da contrariedade...

...Resíduos de um corpo queimado.

A mortificação
é o saciar do seu delírio,
o êxtase dos seus últimos dias...

A implosão
é a liberdade do conceito
sedento e absoluto
da sua prisão perpétua!



Marco Mangas @ 29 de Maio de 2014

segunda-feira, 24 de março de 2014

Reflexo de sua página...

...E no reflexo de sua página,
Su'realidade...


Um suspirar de desalento.
Suas pernas rastejavam
sobre aquele misto de terra,
sangue, suor e lágrimas,
num prazer de dor cristalina,
ajoelhado e rendido a tal adágio,
a tal sonho que nunca se revelou,
consumido pela sede do cansaço,
pela fome de suas palavras.

Seus olhos barrentos e deslumbrados,
(somente) iluminados pela poeira,
p'lo reflexo de sua página,
Su´realidade.

Em seus braços imaculados,
transportava o paladar
do seu prazer, do seu destino,
do reflexo de sua página,
Su´realidade.


Marco Mangas @ 23 de Março de 2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

Poesia (s)em cria(são)...

Poesia (s)em cria(são)...
Neste dia manifestou-se a palavra,
o relevo, a sua indefinição.

O esboço, metamorfose de carvão,
de sossego, que o vento lavra,
Indisposição do poeta, convulsão!

Criaturas puérperas, lançadas em vão,
Lavra a pa(lavra),
Criou-se a poesia e sua meta,
Ergueu-se o ignorado poeta 
e sua definição... 


Marco Mangas @ 21 de Março de 2014