terça-feira, 20 de setembro de 2016

Nevoeiro



Perco-me entre as brumas do nevoeiro,
visão turva, descalça, sem fulgor…
Quero abraçar as clareiras da terra,
desvendar os fragmentos de mim,
colher as palavras ambíguas do passado
incessante…
Procuro o paladar e a voz,
 o sustento de minha existência
consumida pelo nada,
uma folha branca, sem mácula,
sem narrativa, um conto vazio,
um verso disperso de si mesmo,
nada se avista ao alcance do poeta.
Hoje sou a névoa e nada mais.

Marco Mangas @ 20 de Setembro de 2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Inseparável de ti...


Inseparável de ti,
brisa do mar, areal a Sul.
Apenas a tela me separa
do laivo suscitado pelas marés.
Os socalcos que se afogam na sua fragância,
silêncio que se rasga neste eco de sentidos.
Os canaviais que se alimentam da cacimba
despertada pelo marasmo do anoitecer.
As pedras lisas, inertes,
são corpos albergados e levianos,
mergulhados no silêncio cristalino,
balançados na repetição súbita
das ondas e da lembrança.
A jusante, as conchas renascem,
evidenciando-se dos restantes minerais,
um relevo pintado de sal e esperança,
salpicos da voz,
outra forma de expressão poética.

É esta a realidade que encontro
no baú dos segredos oníricos,
encoberta por este manto de algodão,
borbotos salsuginosos onde mergulho.

Sou inseparável de ti…


Marco Mangas @ 31 de Agosto de 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Questiono-me



Onde estará a substância,
o sorriso da sombra que se esconde na penumbra,
a brisa deste deserto de palavras turvas,
o tropel das tempestades,
os dias ébrios e a sabedoria do vinho?

Dias súbitos…

Rosto de silêncio e sol,
timidez vertiginosa desta fadiga intemporal,
aridez imperfeita, imatura,
túbida masturbação da chama,
desejo disperso…

Inconscientemente,
procuro o abrigo, a pureza,
uma pedra que me dê conforto,
alento para beber mais um copo,
a serenidade renascida do poema.


Marco Mangas @ 04 de Agosto de 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A terra



Hoje respiro a terra,
transpiro o sal e o sol,
o silencio sobre as águas deste mar a sul,
o desejo bordado e transbordado
em tons de arco-íris
formando pétalas de esperança,
melodias deste vento incoerente, bravio...
Rodopio na terra fina,
areal da vida, versos longínquos,
versos que bebo neste vai-vém das ondas,
salpicos de suor que fecundam a terra,
desabrolho-me no papel
e nas palavras que não secam…

Marco Mangas @ 29 de Julho de 2016

quinta-feira, 30 de junho de 2016

…dialogava eu (sozinho)




…dialogava eu (sozinho)
diante aqueles  rios de pedra,
que penetravam na terra seca,
rasgando a sua sede asfixiante,
sem leme e sem rumo,
à hora da cegueira da sombra,
enquanto reparava o casco do velho bote,
com versos súbitos,
cânticos que ainda lá perduram,
intimidade nas lágrimas
que ainda me rasuram o rosto…
Serei eu a pedra?
A sombra?
Farei parte da terra?
Onde está o leme?
O bote?
Os rios?!?
Nada aprisiona o poema…

Marco Mangas

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tavira, cidade!


Tavira no seu pranto histórico,
magia de cultura e prazer,
espaço harmonioso, categórico,
pátria que me viu nascer…

Lugar sublime, metafórico,
suas trinta e sete igrejas para sorver,
seu património arquitectónico,
não há palavras para o descrever.

Uma lembrança que suscita saudade,
seu regaço é o meu conforto,
meu berço, serenidade!

Um misto de sentimentos, reciprocidade,
abraçada pela serra e pelo mar absorto,
aqui tão perto, Tavira, cidade!

Marco Mangas

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Rio Gilão



Corro no leito deste rio,
procuro a sombra,
as palavras que me acariciam,
hiante este desassossego,
levante prodígio,
embriagado,
procuro as pétalas de mim,
as margens de ti,
a foz deste agouro magistral,
onde desagua este rio Gilão…

Marco Mangas

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Pêndulo


Pêndulo de sentidos,
amarrado a uma corrente de palavras,
um maço de notas poéticas,
cantos renascentistas,
papéis ardidos,
velas queimadas,
consumismo, metamorfose…

Tudo convertido em cera
o tempo do passado,
a realidade presente,
o pretérito-perfeito recalcado.

Pêndulo de uma lembrança,
o vai-e-vem de um adulto-criança,
e suas memórias,
o vazio do corpo,
a vela consumida,
o gesto vazio.

O que ardeu já não se consome.

Marco Mangas

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Dilúculo



Admiro e soletro esta inquietude,
o nevoeiro da terra,
o caule das rosas,
a insensatez dos espinhos
que perfuram a carne branda,
exaltação do corpo,
pálpebras de uma tocha acesa,
espinhos de fogo,
devastação de madrugadas…

Há uma clareira, dilúculo,
gestação do medo,
outro dia,
o maior distúrbio dos horizontes,
a mesma rua vazia,
sangue derramado nas palavras,
adágio,
perfeição.

Marco Mangas

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Quero-te


Quero-te inocuamente,
louco de ser
na sombra da minha existência.

Quero a tua fertilidade,
as palavras profundas da terra,
coroa de jasmim.

Procuro-te nas sombras,
no silêncio da chuva,
vulto da tua essência.

Procuro a flor eterna,
nas pálpebras do horizonte,
a metáfora de mim.




Marco Mangas @ 15 de Abril de 2016