sexta-feira, 4 de julho de 2014

Palavras



São pérolas negras de minha coroa,
Urnas de esporádicos sonetos,
(En)cantos que no silêncio entoa,
Raízes, embriões, fetos…

Estímulos lançados à toa,
Versos despidos, revoltados, indiscretos,
Profundos como um barco sem proa
E seus transladados esqueletos.

Esculpida em pedra sua biografia,
No papel, sua voz, suas memórias,
Risadas poéticas na sua ortografia.

O poema é o epílogo das histórias,
O pó é a sua presente morfologia,
Passado, futuro, outras trajectórias.



Marco Mangas @ 04 de Julho de 2014




sexta-feira, 20 de junho de 2014

Cadáver


Quando volta o aroma,
a terra molhada,
ocre,
é o palpitar dos corações,
monumentos - figuras de pedra,
o frio não é (re)movido,
é a fúria digna de sua palidez,
distância,
cadáver
frio, (cala)frio.
Inflamada e negra
a exausta manhã,
ajoelhada ao cadáver,
choque - um de nós,
todos          silêncio.
Trajectória ínsone
iridescente
- outro dia...
Crepitações, insectos,
Sortilégio dos ossos,
nas so(m)bras,
o grito é mais leve e leve
- novo rumo sem rumo
uma semente promissora
dispersa.


Marco Mangas @ 20 de Junho de 2014








sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pêndulo



Um pêndulo de sentidos,
amarrado a uma corrente de palavras
e a um maço de notas poéticas.
Tercetos e actos em papéis ardidos,
velas queimadas - metamorfose...
E novamente, tudo convertido em cera
do tempo passado,
da realidade presente,
do pretérito-perfeito recalcado.

- O negro de uma pedra preciosa
encontrada naquela noite,
O branco vestido da donzela
que beijaste e soletraste,
Um misto de frio e calor,
secura e suor,
Lágrimas de alegria e tristeza,
O seu doce sabor,
O ardente gesto de prazer
do gelo derretido em sua pele
leve e sedosa, sedenta de carinho.

Um pêndulo, nada mais...
O vai-e-vem de uma lembrança,
de um adulto-criança,
suas memórias...
Tempos que vão e voltam,
ou que apenas lá ficaram,
ou que simplesmente voltaram para ficar,
Resumindo-se ao vazio do corpo
e ao seu gesto uni constante...

- tic, tac, tic, tac, tic, tac...



Marco Mangas @ 13 de Junho de 2014

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Prisão



Abre-se a janela,
Outra realidade…
A brisa invade a matéria,
As partículas de pó
são fagulhas do aço derretido...
A pele é o suporte,
substituto da tela,
O papel da contrariedade...

...Resíduos de um corpo queimado.

A mortificação
é o saciar do seu delírio,
o êxtase dos seus últimos dias...

A implosão
é a liberdade do conceito
sedento e absoluto
da sua prisão perpétua!



Marco Mangas @ 29 de Maio de 2014

segunda-feira, 24 de março de 2014

Reflexo de sua página...

...E no reflexo de sua página,
Su'realidade...


Um suspirar de desalento.
Suas pernas rastejavam
sobre aquele misto de terra,
sangue, suor e lágrimas,
num prazer de dor cristalina,
ajoelhado e rendido a tal adágio,
a tal sonho que nunca se revelou,
consumido pela sede do cansaço,
pela fome de suas palavras.

Seus olhos barrentos e deslumbrados,
(somente) iluminados pela poeira,
p'lo reflexo de sua página,
Su´realidade.

Em seus braços imaculados,
transportava o paladar
do seu prazer, do seu destino,
do reflexo de sua página,
Su´realidade.


Marco Mangas @ 23 de Março de 2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

Poesia (s)em cria(são)...

Poesia (s)em cria(são)...
Neste dia manifestou-se a palavra,
o relevo, a sua indefinição.

O esboço, metamorfose de carvão,
de sossego, que o vento lavra,
Indisposição do poeta, convulsão!

Criaturas puérperas, lançadas em vão,
Lavra a pa(lavra),
Criou-se a poesia e sua meta,
Ergueu-se o ignorado poeta 
e sua definição... 


Marco Mangas @ 21 de Março de 2014

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

E assim...



E assim…
Navegamos ao ritmo do silêncio
de cada palavra não proferida,
enterrada e recalcada.
Uma vala comum de sentimentos,
folhas, cadernos, blocos,  letras, vozes.

Naufragaremos um dia (para sempre)
sob uma lápide contrastada com versos,
rosas, crisântemos, ou não…
Palavras dispostas, sem tonalidade,
abraçadas à terra e ao incontestável.

E assim…
Enterraremos a poesia.



Marco Mangas @ 25 de Fevereiro de 2014

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

As sombras daquela árvore de pedra


As sombras daquela árvore de pedra,
seus galhos, seu objecto, sua adjectivação.
A existência feroz e insignificante de suas raízes
perante tais sementes inofensivas…
Os corvos lideram a acção,
determinados, insaciáveis, imperatrizes…
As palavras são meramente figurantes,
testemunhas de tal cenário,
permissivas a tal acto hostil e pintado.



Marco Mangas @ 12 de Fevereiro de 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Assombração


Quero assombrar o teu ego,
O teu ventre,
Mergulhar no teu corpo,
Contornar a tua sombra,
Beber e (em)beber-te,
Devorar a tua imoralidade,
O suor dos teus pecados,
O aroma dos teus desejos…
Quero perder-me no teu labirinto,
Incendiar-me de tesão,
Atingir o clímax da tua madrugada
Quente e húmida,
Sem nexo, nem (com)plexo,
Até atingir o pulsar do teu orgasmo
Crescente e selvagem,
Enlouquecer na miragem da tua assombração!


Marco Mangas @ 29 de Janeiro de 2014

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A sua razão...



Ausência presenciada,
Sombra da argumentação,
Honrado seja o seu veneno,
Sua dissertação:
Louca, transpirada, tresloucada…

Que ousadia cristalina dissipada
Reparo aceso, amplo, sem prisão,
Sortilégio no seu pleno,
Num rumo índole, robusto: enumeração
libertina, voraz, consumada.

Discreta sombra declinada,
Criatura em mutação,
Esboço do grito obsceno,
Cruel à medida da sua aproximação,
Incontestável e interpolada…

…A sua razão…



Marco Mangas @ 1 de Janeiro de 2014