sexta-feira, 29 de julho de 2016

A terra



Hoje respiro a terra,
transpiro o sal e o sol,
o silencio sobre as águas deste mar a sul,
o desejo bordado e transbordado
em tons de arco-íris
formando pétalas de esperança,
melodias deste vento incoerente, bravio...
Rodopio na terra fina,
areal da vida, versos longínquos,
versos que bebo neste vai-vém das ondas,
salpicos de suor que fecundam a terra,
desabrolho-me no papel
e nas palavras que não secam…

Marco Mangas @ 29 de Julho de 2016

quinta-feira, 30 de junho de 2016

…dialogava eu (sozinho)




…dialogava eu (sozinho)
diante aqueles  rios de pedra,
que penetravam na terra seca,
rasgando a sua sede asfixiante,
sem leme e sem rumo,
à hora da cegueira da sombra,
enquanto reparava o casco do velho bote,
com versos súbitos,
cânticos que ainda lá perduram,
intimidade nas lágrimas
que ainda me rasuram o rosto…
Serei eu a pedra?
A sombra?
Farei parte da terra?
Onde está o leme?
O bote?
Os rios?!?
Nada aprisiona o poema…

Marco Mangas

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tavira, cidade!


Tavira no seu pranto histórico,
magia de cultura e prazer,
espaço harmonioso, categórico,
pátria que me viu nascer…

Lugar sublime, metafórico,
suas trinta e sete igrejas para sorver,
seu património arquitectónico,
não há palavras para o descrever.

Uma lembrança que suscita saudade,
seu regaço é o meu conforto,
meu berço, serenidade!

Um misto de sentimentos, reciprocidade,
abraçada pela serra e pelo mar absorto,
aqui tão perto, Tavira, cidade!

Marco Mangas

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Rio Gilão



Corro no leito deste rio,
procuro a sombra,
as palavras que me acariciam,
hiante este desassossego,
levante prodígio,
embriagado,
procuro as pétalas de mim,
as margens de ti,
a foz deste agouro magistral,
onde desagua este rio Gilão…

Marco Mangas

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Pêndulo


Pêndulo de sentidos,
amarrado a uma corrente de palavras,
um maço de notas poéticas,
cantos renascentistas,
papéis ardidos,
velas queimadas,
consumismo, metamorfose…

Tudo convertido em cera
o tempo do passado,
a realidade presente,
o pretérito-perfeito recalcado.

Pêndulo de uma lembrança,
o vai-e-vem de um adulto-criança,
e suas memórias,
o vazio do corpo,
a vela consumida,
o gesto vazio.

O que ardeu já não se consome.

Marco Mangas

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Dilúculo



Admiro e soletro esta inquietude,
o nevoeiro da terra,
o caule das rosas,
a insensatez dos espinhos
que perfuram a carne branda,
exaltação do corpo,
pálpebras de uma tocha acesa,
espinhos de fogo,
devastação de madrugadas…

Há uma clareira, dilúculo,
gestação do medo,
outro dia,
o maior distúrbio dos horizontes,
a mesma rua vazia,
sangue derramado nas palavras,
adágio,
perfeição.

Marco Mangas

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Quero-te


Quero-te inocuamente,
louco de ser
na sombra da minha existência.

Quero a tua fertilidade,
as palavras profundas da terra,
coroa de jasmim.

Procuro-te nas sombras,
no silêncio da chuva,
vulto da tua essência.

Procuro a flor eterna,
nas pálpebras do horizonte,
a metáfora de mim.




Marco Mangas @ 15 de Abril de 2016

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ainda há pouco...



Ainda há pouco aqui estava
sentado,
diante o espelho,
provando as gotas do seu reflexo,
querendo desvendar
marcas de um passado
e algumas dedadas
do teu corpo.
…e nada.


Ainda há pouco aqui estavas
sentada,
diante o meu corpo,
teu sorriso
tocando o meu rosto,
palavras dóceis,
d’encanto, volúpia…
Sensatez do poema,
uma pedra fria.


Marco Mangas @ 18 de Fevereiro de 2016

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

banalidades de um poeta


nasci carne e osso,
sonhei no infinito,
escrevi durante a queda no precipício,
semeei esperança,
compus a terra,
observei o nada,
pintei minhas mágoas,
viajei sem rumo,
sobrevoei outeiros e oceanos,
cruzei caminhos,
rasguei folhas de árvore,
sorri para a pétala de uma flor,
admirei o excêntrico,
descobri um ser,
colhi o explendor,
apaixonei-me pela vida,
contemplo a morte

…banalidades de um poeta!

Marco Mangas @ 17 de Fevereiro de 2016

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Neste trilho de memórias…



Neste trilho de memórias,
ante vultos sombrios,
heis um clarão,
um poema que espreita o ventre,
o corpo da semente
fecundada pela lágrima
que não me ocorre.
Tacteio a terra,
firmo o olhar neste deserto
de palavras espezinhadas
pela mágoa e pela saudade
dos que partiram….
Vislumbro o tom fosco das raízes
devastadas pelo fogo,
aterrorizadas por esta vida telúrica
e seus transeuntes.


Marco Mangas@ 19 de Janeiro de 2016